Caiana Revista académica de investigación en Arte y cultura visual

Caiana Nro7

Libros / detalle

Andreas Huyssen

Culturas do passado-presente – modernismos, artes visuais, políticas da memória


Rio de Janeiro, Contraponto, 2014, 213 páginas.

Graziela Naclério Forte

O que há em comum entre os trabalhos do artista plástico argentino Guillermo Kuitca, o teatro de sombras do sul-africano William Kentridge e da indiana Nalini Malani, a série de fotografias do vietnamita Pipo Nguyen-duy e o modernismo nas duas Alemanhas (oriental e ocidental)?

De acordo com o alemão Andreas Huyssen, professor da Universidade Columbia, crítico de arte e autor do recém-lançado no Brasil Culturas do passado-presente (tradução Vera Ribeiro), o ponto de contato está na forma como os artistas lidam com a memória a partir dos traumas históricos de períodos ligados ao Holocausto, II Guerra Mundial, Guerra Fria, Ditadura na América Latina e Genocídio. As obras selecionadas seguem contextos nacionais, não existindo entre elas algum tipo de padrão pré-estabelecido.

Ao todo são 10 ensaios, que abordam aspectos da literatura bem como das artes plásticas, mídia e teoria crítica a partir da produção realizada na América Latina, China, Ásia ou África.

A opção do autor de investigar obras de origens geralmente definidas como “fora do eixo” ou da “periferia” parece pouco comum. Talvez o mais óbvio fosse estudar a arte produzida dentro da tradicional geografia do modernismo, centrada na Europa e nos Estados Unidos, ignorando totalmente as outras partes do globo. Mas não foi este o caso.

Influenciado pela preocupação com a política da memória em seu país de origem, desde 1970, Huyssen tem particular interesse pelos trabalhos artísticos de diferentes épocas e das mais diferentes partes do planeta. Para ele, os desenvolvimentos são desiguais e decorrem de tradições nacionais que refletem os diferentes estágios de urbanização e industrialização de cada país. O modernismo francês, por exemplo, precedeu a variante alemã. A pintura e o romance vieram primeiro na França. A música e a filosofia na Alemanha. E a arquitetura modernista foi a última a aparecer em qualquer parte. Desta forma, a transição é condição de possibilidade da ascensão tanto do modernismo na Europa, como nas colônias, não importando o grau de diferença. E assim, os múltiplos modernismos e suas diversas trajetórias permanecem ligados por mediações complexas. Em outros termos, não é possível pensar em cultura puramente global separada das tradições locais.

Sob essa perspectiva, sugere análises totalizantes em termos geográficos, levando-se em consideração as refrações que afetaram os vários “modernismos alternativos”, termo utilizado para denominar países que estão fora da Europa, mas que encontraram terreno fértil na América Latina e se depararam com a resistência do nativismo ou de políticas culturais oficiais como na antiga União Soviética ou que assumiram características diferenciadas.

O livro formula questões originais ao tentar superar uma visão canonizada das vanguardas. De maneira instigante, propõe uma revisão das teorias consagradas, indo além dos velhos clichês: centro e periferia, global e local, colonial e pós-colonial, moderno e pós-moderno, ocidental e oriental, porque tais contrapontos pressupõem distinções entre as relações e determinam dois lados contrários, sendo um deles superior e o outro inferior, o que atenua a importância das relações hierárquicas de valor presentes em todas as práticas culturais.

Como aspecto geral, o livro se orienta pelo pressuposto da globalização do modernismo e da política da memória, sem ter criado um modernismo global único ou uma cultura global da memória dos direitos humanos.

Neste trabalho, assim como nas demais publicações do autor intituladas Memórias do Modernismo (1996) e Seduzidos pela Memória (2000), o objetivo é dar um lugar para a memória nas artes, na política e na defesa dos direitos humanos e serve de alerta para o perigo que é o processo de instrumentalização da memória, passível de ser transformada em um produto da indústria cultural, uma vez que ela pode ser manipulada e nem sempre  apresenta características positivas, podendo estar a serviço das ideologias mais radicais ou sujeita aos abusos políticos e econômicos. Alguns desses abusos são discutidos nos ensaios “Resistência à memória”, “Usos tradicionais do discurso sobre o Holocausto e o colonialismo” e “Os direitos humanos internacionais e a política da memória: limites e desafios”. 

Vale lembrar que cada vez mais são erguidos monumentos, memoriais, museus, arquivos, ou seja, surgem a cada dia instituições que valorizam o passado. É dentro desse contexto que Andreas Huyssen, como leitor atento de Walter Benjamin, observa a emergência da memória como uma das preocupações culturais e políticas das sociedades ocidentais, contemporâneas, pós-industriais e pós-modernas. 

O tema não é totalmente novo, pois a partir da poesia de Charles Baudelaire, Benjamin passou a articular as primeiras linhas sobre a teoria da memória no advento da modernidade. Ele acreditava que ela é capaz de destruir os nexos e (re) inscrever o passado no presente, num movimento duplamente articulado: por um lado tem-se a restauração e a reconstituição do que foi destruído e por outro trata-se de algo aberto e inacabado. E assim, a memória é compreendida como um elemento importante do novo pensamento sobre a história e é vista não mais como representação do passado, mas como a apresentação dele.

Friedrich Nietzsche, Georges Didi-Huberman, Maurice Halbwachs e Michel Foucault também debateram o tema, porém em geral os discursos se inseriam nos contextos nacionais. No entanto, a abordagem apresentada por Andreas traz uma combinação de estudos culturais com aspectos sociológicos, econômicos e levanta questões políticas envolvendo os direitos humanos e a sociedade civil, comunidades imaginadas e o papel da religião, do gênero e da subalternidade. Todas essas questões são atuais e encontram-se presentes nas sociedades contemporâneas, pós-modernas.

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En Caiana. Revista de Historia del Arte y Cultura Visual del Centro Argentino de Investigadores de Arte (CAIA).
N° 7 | Año 2015 en línea desde el 4 julio 2012.

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